O volume de vendas do varejo brasileiro cresceu 0,5% em março de 2026 frente a fevereiro e atingiu novo recorde histórico da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE — a terceira alta consecutiva do setor, com 19 dos 27 estados registrando expansão. Na comparação com março de 2025, a alta foi de 4,0%. O dado veio acima da mediana das projeções do mercado.

O resultado surpreende positivamente num contexto de Selic em 14,5% ao ano e inflação acima da meta. Mas a contradição é aparente — e os dados desagregados explicam exatamente de onde veio o crescimento.

Os números do IBGE — desempenho por setor

AtividadeVariação (mês a mês)Observação
Equip. informática e comunicação+5,7%Valorização do real favoreceu importações; menor custo ao consumidor
Combustíveis e lubrificantes+2,9%Volume físico — não necessariamente preço; demanda por mobilidade
Outros artigos pessoais e domésticos+2,9%Categoria diversificada, inclui beleza e decoração
Livros, jornais e papelaria+0,7%Segmento pequeno mas positivo
Farmácias e perfumaria+0,1%Categoria defensiva — resiliente em qualquer ciclo econômico
Hiper/supermercados e alimentos−1,4%Possível impacto de preços altos reduzindo volume físico comprado
Móveis e eletrodomésticos−0,9%Setor sensível a crédito — Selic alta freia parcelamento
Tecidos, vestuário e calçados0,0%Estabilidade

Variação sobre série com ajuste sazonal, comparação com fevereiro de 2026. Fonte: IBGE — PMC março 2026.

Como o varejo cresce com juros em 14,5%?

A aparente contradição tem três explicações objetivas:

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  1. Defasagem da política monetária: os efeitos de juros altos levam de 6 a 18 meses para permear toda a economia. O aumento da Selic que está em vigor agora vai desacelerar o consumo — mas o efeito pleno ainda está na frente, não atrás.
  2. Mercado de trabalho aquecido: o desemprego caiu em 2026, sustentando a massa salarial. Quem tem emprego e renda, consome — independentemente dos juros.
  3. Composição setorial: os destaques positivos (informática, combustíveis, farmácias) são menos dependentes de crédito parcelado. Já os setores mais sensíveis a crédito (móveis, eletrodomésticos) caíram — exatamente o que a teoria econômica prevê com Selic alta.

O varejo ampliado também bateu recorde

O varejo ampliado — que inclui automóveis, motocicletas e material de construção — cresceu 0,3% em março frente a fevereiro e 6,5% na comparação anual. Material de construção e automóveis são categorias que dependem de crédito de longo prazo — sua resiliência sugere que parte da demanda represada de 2025 ainda está sendo atendida em 2026.

O que esse dado significa para a economia e para o seu bolso

Um varejo em recorde histórico com Selic em 14,5% manda um sinal claro ao Banco Central: a demanda ainda está firme. Isso tem implicações diretas:

  • Para o Copom: dados de atividade aquecida dificultam cortes de juros antecipados. O BC vai precisar de evidências claras de desaceleração antes de mudar o rumo. Menos chance de Selic cair no curto prazo.
  • Para os preços: varejo forte com oferta relativamente estável é pressão inflacionária. O IPCA projetado em 4,86% para 2026 (Focus 13/05) reflete esse diagnóstico.
  • Para o crédito: taxas de juros ao consumidor (cartão, crédito pessoal, CDC) continuam elevadas — o crédito parcelado não ficou mais barato. Quem comprou a prazo recentemente está pagando caro por isso.
  • Para os investimentos: Selic alta por mais tempo = CDI e Tesouro Selic continuam sendo investimentos de alto retorno com baixo risco no horizonte de 2026.

O quadro completo da economia brasileira em maio de 2026 é de contrastes: varejo em recorde, bolsa em queda, câmbio pressionado e inflação acima da meta. Para o Banco Central, o recado dos dados é que não há espaço para afrouxar a política monetária cedo — e isso é o que está sendo precificado pelo mercado nesta quarta-feira.